Você tem medo?
Em minha opinião, a mente humana possui apenas um sentimento básico, que é o medo. Os demais “sentimentos” decorrem da variação de intensidade do medo em relação à sensação de dor.
Naturalmente o ser, sendo humano ou não, está programado para sobreviver. Existir é a missão primordial do ser. A missão secundária de qualquer ser é a sobrevivência da espécie, ou seja, reproduzir e/ou laborar para manter as condições ambientais de sobrevivência dos iguais.
As situações que aproximam o ser à sua morte causam a sensação de dor. Assim, a dor é a sensação que deve ser evitada, pois indica o caminho da morte, da inexistência. A falta de dor é a sensação que é buscada incessantemente, pois indica a distância da morte e, logo, a existência.
Então, é possível perceber que a motivação do ser é a busca da ausência de dor.
Ao longo da existência o ser vai absorvendo inúmeras informações do ambiente externo e da correlação dessas informações com a intensidade de dor provada em cada situação. Então é formada uma base de dados de tudo aquilo que causa dor e está associado ao caminho da morte. Novamente, quanto mais perto da morte, maior a sensação da dor.
O medo é um sentimento que decorre da imaginação da proximidade das situações que acarretam dor. Ou seja, situações que precisam ser evitadas a fim de assegurar o cumprimento da missão primordial do ser, que é a sua própria existência.
A dor por seu turno é uma aliada muito importante do ser. Imagine um comandante em uma batalha que recebe informações de mensageiros que chegam constantemente. Ora indicam que avançam tropas inimigas do norte, ora do sul, ora com canhões avançados, ora com aviões modernos. O comandante naturalmente não gosta do que ouve dos seus mensageiros, mas não é prudente calar a voz dos mensageiros, mas sim usar essas informações a favor da sua causa. Eliminar os mensageiros significaria abrir mão de informações necessárias para traçar estratégias e empreender táticas adequadas. Mas é o que muitas vezes o ser humano faz com a adoção de analgésicos que cala o mensageiro do corpo, a dor.
Seria benéfico para a missão do comandante não fazer nada? Seria benéfico para a missão do comandante enviar a infantaria contra os aviões inimigos? Seria benéfico para a missão do comandante enviar baterias anti-aéreas contra os canhões modernos do inimigo? Seria benéfico enviar tropas para o leste? A resposta é óbvia. Então é inquestionável usar as dicas da dor para vencer a batalha.
Falar da dor física, daquela dor de cabeça, daquela dor de barriga é didático, pois a maioria dos seres humanos as conhece bem. Mas existem outros tipos de dor, aquelas inventadas, fruto das associações de medos e situações imaginadas, compiladas e consolidadas, difíceis de serem desfiadas.
Estar feliz ou estar triste é um modo configurado pela intensidade de medo em relação a inúmeras situações permanentes e transitórias. O medo é necessário para preservação e segurança, mas o medo infundado é um mal que acomete talvez a maior parte das pessoas do nosso tempo.
A própria forma de divulgação de informações pela mídia é moldada para causar um efeito aterrorizador na população. É um trabalho de mestres, pois há uma dramatização das más notícias, a fim de chocar, aterrorizar e, enfim, chamar a atenção do expectador.
Os pais educam seus filhos sob a chancela do medo disso ou daquilo. A religião está fundada na cultura do medo, com promessas de vingança do grande criador para aqueles que não se comportam conforme a cartilha da igreja. Enfim, se tem no momento atual fontes importantes de medos infundados que minoram o sentimento de bem estar do indivíduo.
Por outro lado, a ordem social poderia ser bastante afetada sem a massificação do medo. Então creio se tratar de uma questão de dosagem desse recurso.
Seria uma boa terapia o indivíduo dedicar menos tempo de pensamento nas situações embebidas de medo.